Com quantas cartas se faz uma valsinha?

Nas minhas pesquisas sobre cartas, achei um site incrível do Instituto Moreira Sales: o Correio IMS. Trata-se de coletânea de correspondências trocadas entre diversas personalidades brasileiras. Além de extremamente interessante e inusitado, o material é  ótima fonte de aprendizado sobre a história do nosso país, do império à ditadura militar, passando por questões de saúde e meros problemas amorosos.

Dentre as correspondências disponibilizadas pelo site, duas me chamaram atenção especial: cartas trocadas entre Vinícius de Moraes e Chico Buarque, sobre a música “Valsinha” (música de Vinícius e letra do Chico).

Para quem gosta de música, é um prato cheio. Ler as cartas nos permite entrar no universo criativo dos artistas e entender o contexto em que eles fizeram a composição. A amizade entre eles, a intimidade e as palavras escolhidas a dedo para transmitir a mensagem desejada da melhor forma possível. Já imaginou a dificuldade de compor uma música com alguém que mora longe, sem internet? A sorte é que escrever é justamente a praia dos compositores… E quando se trata de dois gênios como eles, esse toque “retrô” deixa tudo ainda mais charmoso.

Eu conheço “Valsinha” desde pequena, dos livros de seresta do meu pai, e a letra sempre me comoveu bastante. Quando a ouvia, ainda criança, visualizava aquele casal de velhinhos tentando resgatar o amor esquecido, rodando como dois adolescentes numa praça de cidade do interior, enquanto o mundo inteiro “parava”, compreendia e respeitava aquele sentimento. Inclusive, me lembro de ter ficado com os olhos cheios de água em várias rodas de violão, serestas e cantorias que já presenciei lá em casa, por conta dessa música (sim, eu sou dessas).

Se você ainda não conhece a “Valsinha”, coloque no youtube e me conte depois. Ah, e faça isso antes de ler a cartas, que vai ficar bem mais interessante! Duvido que você não consiga captar a beleza da canção, mesmo que a sua preferência musical não seja pela MPB. Basta ter bom senso e o coração aberto para admirar um trabalho bem feito, não é mesmo?

Divirtam-se!


Conteúdo extraído do site http://www.correioims.com.br/

Carta 1

De: Vinicius de Moraes

Para: Chico Buarque

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo!

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três ideias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio morava em Buri 11,[1] e lá foi a carta para Buri 11. Mas como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor estas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de Valsa hippie, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui no princípio estranhou um pouco, mas depois se amarrou à ideia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

Valsa hippie

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um modo mais quente do que comumente
costumava olhar
E não falou mal da poesia como era mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse:
Vamos nos amar…
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga
costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a
bailar…
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não
se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.

Referência: Achados. Organização de Caique Botkay. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 39.
[1] N.S.: Vinicius se refere à Rua Buri, em São Paulo, onde morava o historiador Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico, com a família. A casa era no nº 35 da rua, não no nº 11.

Carta 2

De: Chico Buarque

Para: Vinicius de Moraes

Rio [de Janeiro], 2 de fevereiro [de 1971]

Caro poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o Apesar de você. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

Valsa hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí. Valsa hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá:

Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do ultimo verso onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora estou pensando em retomar uma ideia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor mo permitisse, porque deu bolo com o Apesar de você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. Dê um abraço na Gessy, um beijo no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre
costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre
falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria
ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo
não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e
começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda
despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não
se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Referência: Achados. Organização de Caique Botkay. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 40-41.

2 Comments
  • MARIZE BARBOSA DANTAS
    Posted at 22:44h, 11 julho Responder

    Amei saber da história dessa música que eu amoooo!!!

    • escrevapramim
      Posted at 15:09h, 14 julho Responder

      Que bom que você gostou, Marize! 🙂

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