Receita Real

Todo mundo conhece a rainha Elizabeth II. Atual soberana do Reino Unido, esposa do duque de Edimburgo, mãe do Príncipe Charles. Foi coroada aos 25 anos e recentemente completou 65 de reinado: o mais longo da história britânica. Com tanta experiência assim, é natural que ela já tenha escrito e recebido cartas de grande importância histórica, sejam relacionadas ao seu reinado ou à sua vida pessoal (convenhamos que, quando se trata da família real britânica, essas duas coisas não são facilmente dissociáveis).

Dentre as cartas famosas da rainha, existe uma que foi enviada a uma escritora britânica, contando detalhes sobre como ela e o então futuro marido se conheceram: a paixão, o namoro, as danças em casas noturnas e as perseguições dos fotógrafos. Em abril do ano passado essa correspondência foi arrematada em leilão por nada mais nada menos que 14.000 libras, equivalente a quase R$ 72.000,00.

Quem já assistiu ao seriado “The Crown” (muito bom por sinal) deve se lembrar bem da caixinha vermelha do gabinete da rainha. Tratava-se de uma caixa na qual os assessores guardavam papéis importantes, notícias de jornal e documentos para apreciação e / ou assinatura de sua alteza. Todas as manhãs a rainha abria a caixinha vermelha, verificava o conteúdo e despachava os assuntos de ordem do dia, exatamente como seu pai havia lhe ensinado. Inclusive, convém observar que o pai de Elizabeth II, Rei Jorge VI, era conhecido pelos seus problemas de gagueira e notada dificuldade de falar em público, que são mostrados de forma muito sensível e interessante no filme “O Discurso do Rei”. Sabendo disso, parece evidente que não foi por acaso que ele criou a tal caixa vermelha, concordam? Certamente a escrita o deixava muito mais à vontade que o discurso.

Tá certo que a história da caixa vermelha pode estar recheada de certo “exagero cinematográfico”, mas ainda assim ela evidencia o quanto os registros manuais tinham seu valor naquela época. E o mais encantador é que, mesmo em plena era da modernidade, a coroa não perdeu o seu charme. De acordo com o site da monarquia britânica, até hoje a rainha recebe, em média, 60.000 correspondências por ano. O site diz ainda que os secretários particulares de Elizabeth II mostram a ela diariamente quase todas as correspondências recebidas e que ela se mostra bastante interessada nas cartas que recebe. A tal caixinha pode até não existir mais, mas parece que a coroa continua dando o devido valor às correspondências.

Antes de começar o projeto do Escreva Pra Mim, pesquisei muito sobre o tema: história das correspondências, cartas famosas, etc. Aí encontrei um livro incrível chamado “Cartas Extraordinárias”, que traz uma carta bastante inusitada escrita pela Rainha Elizabeth. Querem ver?

Em 1959 a Rainha Elizabeth II hospedou o então presidente americano, Dwight Eisenhower, em uma das propriedades da coroa na Escócia. Alguns meses após a visita, a rainha enviou ao presidente uma carta escrita de próprio punho, em papel timbrado do palácio de Buckingham. E se vocês estão achando que o conteúdo da carta era a situação política e diplomática mundial, erraram feio. A rainha enviou uma carta simpática, agradecendo a visita, elogiando a atuação do político e mandando para seu ex-hóspede – podem acreditar – uma receita de bolo! Ao que tudo indica, Eisenhower adorou os famosos bolinhos ingleses (“scones”) que foram servidos durante sua hospedagem na Escócia. E a rainha, fofa que só ela, ficou de enviar a receita.


Trecho extraído do livro Cartas Extraordinárias, da Companhia das Letras:

24 de janeiro de 1960

Palácio de Buckingham

Caro sr. presidente,
        Ao ver no jornal de hoje uma foto do senhor diante de uma churrasqueira onde se assavam codornas, lembrei que não lhe mandei a receita dos scones que havia prometido em Balmoral.
       Apresso-me a mandá-la e espero que goste do resultado.
       A receita é para dezesseis pessoas; para um número menor, geralmente ponho menos farinha e leite, mas uso os outros ingredientes na quantidade especificada.
       Também experimentei usar melado, além de açúcar, e ficou muito bom.
       Creio que é preciso bater bem a mistura e não demorar muito para levá-la ao fogo.
       Acompanhamos com grande interesse e muita admiração sua extraordinária visita a tantos países e pensamos que, em nossas futuras viagens, nunca mais poderemos dizer que exigem demais de nós!
      Lembramos com grande prazer de sua visita a Balmoral, e espero que a fotografia seja uma recordação do dia bastante feliz que o senhor passou conosco.
     Nossos melhores votos aos senhor e à sra. Eisenhower.

     Cordialmente,
     Elizabeth R

     SCONES

     Ingredientes

     4 xícaras (chá) de farinha de trigo
     4 colheres (sopa) de açúcar de confeiteiro
     2 xícaras (chá) de leite
     2 ovos inteiros
     2 colheres (chá) de bicarbonato de sódio
     3 colheres (chá) de cremor de tártaro
     2 colheres (sopa) de manteiga derretida

     Bata os ovos, o açúcar e cerca de metade do leite; acrescente a farinha e misture bem, adicionando o restante do leite, o bicarbonato e o cremor de tártaro; junte a manteiga derretida e misture.

     Suficiente para 16 pessoas

Fragmento da carta. Imagem extraída do livro “Cartas Extraordinárias”


Eu que não sou boba nada já anotei tudo no meu caderninho de cozinha. Scones: receita da querida Lilibeth! Preparem-se que daqui a pouco vai ter foto do meu chá das cinco. Falta só descobrir o que é esse tal de cremor de tártaro… 🙂

2 Comments
  • Marina Vaz
    Posted at 21:19h, 24 março Responder

    Quando descobrir me conta!
    E ai de você se eu não for convidada para este chá das 5… he he he

    • escrevapramim
      Posted at 16:31h, 11 abril Responder

      Marina, está convidadíssima! Vou pedir ajuda da Letícia pra deixar a decoração chique! 🙂

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